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XIV.

por Neurótika Webb, em 09.10.15

O que mais me preocupa nela é a rebeldia. Nem sequer me quis dizer o que viu, como será o futuro, se seremos bem-sucedidas. Não percebe que todos temos que fazer sacrifícios para atingir os objectivos. O meu sacrifício foram os choques eléctricos, contínuos, que me deixavam tonta, mas que de certa forma me aumentar

a capacidade de ver não só o passado, mas saber que mensagens o passado tem para nós.

Há uma mulher na nossa pequena cela. É ela que me conta as histórias deste lugar imundo, que me revela os seus segredos para que consigamos fugir no futuro.

E se ela tiver que se casar com ele? Qual é o problema? Fugimos depois!

Olhou-me com ódio, como nunca lhe tinha visto. Mas não importa, eu hei-de vingar-nos às duas. Ela é a que sente mais. Sente tudo, nela as emoções são mais fortes. Descontroladas até.

A minha raiva…o meu ódio é uma lâmina de gelo que os há-de esventrar a todos!

Os nossos pais vêm amanhã…e, neste momento, já não consigo sentir um pingo de amor por eles. Nem sequer pela mãe, que nos penteava os cabelos, que nos contava histórias à lareira enquanto bebíamos chá quente nos dias de Inverno.

Ela nunca nos amou. Ou se amou, esse amor foi morrendo devagarinho, à medida que nós revelávamos as nossas visões. A última vez que nos viu, saiu a correr, deitando-nos um último olhar como se fossemos monstros.

A mulher de cabelos desgrenhados que se senta no canto da nossa cela mostrou-me onde escondeu uma faca antes de morrer.

É com ela que lhe vou cortar a garganta quando ele lhe tentar tocar. Vamos ficar as duas, de mãos dadas, a ver o sangue escorrer-lhe do pescoço, os olhos de pânico a sentir a vida a escapar-se-lhe e a boca quando soltar o último suspiro.

 

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publicado às 15:00

Aviso

por Neurótika Webb, em 08.10.15

Excepcionalmente, esta semana, o próximo capítulo do Memento Mori será publicado amanhã.

 

Isto porque, a moça que está a paginar a revista apagou-me 5 textos "sem querer"...

Como devem calcular, vou ter que fazer tudo de novo, ir aos press releases, fazer download de fotos e, escrever tudo novamente.

Esrou capaz de matar alguém!

 

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publicado às 15:52

XII.

por Neurótika Webb, em 24.09.15

XII.

Eu já sabia!

Já sabia que ao mencionar a minha irmã iria ser mais forte que ele.

As pessoas têm uma curiosidade mórbida por gémeos, como se fossemos umas atracções de circo.

E também sabia que, ao contrário de mim, a sua face luminosa, os seus cabelos da cor de uma ceara madura beijada pelo sol e os seus olhos da cor do mar iriam exercer a sua magia sobre ele. Eu não. Eu pareço uma criatura saída de uma masmorra, com os cabelos negros emaranhados e os meus olhos, da cor dos dela, espreitam por baixo como os de um animal perdido no escuro.

Fiquei a vê-los de longe, escondida atrás da porta que dá para a sala de convívio. Não sei o que lhe disse, mas a maneira como lhe afastava os caracóis despenteados do rosto, percebi que estava a resultar. Todos se perdem de amores por ela, como o rapaz que ia entregar as verduras lá a casa e se punha a espreitar para dentro, e que suspirava quando a via.

Lembro-me de um dia me ir pôr ao espelho a tentar perceber porque não olhavam os rapazes para mim daquela maneira. Talvez fosse os cabelos negros contra a pele branca que me dão um ar de boneca de porcelana, daquelas que ninguém quer. Todas as meninas querem as bonecas loiras. Até eu. Mas nunca tive ciúmes, dela nunca! E agora ela pode ser a nossa saída deste inferno. Se ela conseguir domar aquele espírito rebelde…

Sempre fui a mais calada, a mais séria, a mais observadora. Nos meus longos silêncios gostava de observar as pessoas, a maneira como gesticulavam quando falavam. Por vezes, mesmo sem os ouvir, sabia do que falavam, só pela maneira como se moviam. Talvez por isso saiba que ele não lhe vai resistir.

Apesar de ele achar, que por ser o médico, tem controlo sobre ela, está muito enganado.

Pela maneira como se inclina sobre ela, como lhe passa a mão no rosto, como os seus olhos brilham quando a olha, ela é que tem o controlo.

E ele é perfeito.

Quando o olhei nos olhos só vi felicidade. Uma infância feliz e uma vida de facilidades.

Não tem dores escondidas, por isso não é desconfiado, não vai perceber o nosso jogo.

Mas tudo depende dela. Ela tem que o seduzir. Tem que o fazer casar, para podermos sair daqui. Só temos que ter a subtileza de o fazer acreditar que é tudo ideia dele.

Interrogo-me se ela será capaz de o fazer.

 

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publicado às 15:00

Memento Mori - XI.

por Neurótika Webb, em 22.09.15

Para quem ainda não percebeu...o Memento Mori retornou hoje!

 

Bora lá cuscar aqui!

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publicado às 15:41

Memento Mori - Capítulos V a X

por Neurótika Webb, em 17.09.15

VI.

 

Porque vamos lá ver. Sabemos de nós enquanto anormais na certeza que a normalidade não nos enquadra. Nós aceitamo-nos, os outros não. Hoje soube outra vez disso e agora sofro as consequências. Cada escolha uma consequência, cada consequência uma escolha.

Fartei-me de estar fechada neste quarto. Ainda não tinha mostrado, até hoje, o meu feitio irascível e os contornos do que sou. Fartei-me. Admito. Ela saiu novamente de manhã e deixei-me ficar enrolada em mim. O sino tocou, as horas correram e de repente, não sei que foi, se um trinado de um pássaro, se um lampejo de vida a correr-me nas veias a acordar, se um raio de sol a fazer brilhar o pó que dançava nas janelas: bati na porta com força.

Quis viver.

A enfermeira que veio era alta e tinha bigode. Abriu a porta e sem dizer uma palavra encostou uma mão gorda e quase peluda na minha cara. O impacto, brutal, fez-me cair contra a parede. Olhei-a com raiva. Podia, naquele momento, agarrar-me ao corpo que era dela e abrir-lhe muito lentamente a barriga, as mamas, ver-lhes as tripas repletas da porcaria a compunham.

Sorri, num esgar ensanguentado de louca.

- Tu vais morrer! Tu vais morrer! Tu vais morrer! – Uma cantinela, cada vez mais alta. Cada vez maior – tu vais morrer, tu vais morrer, tu vais morrer!

Antes dela reagir, batendo-me outra vez, eu já subira, numa agilidade de gato para cima da cama.

- Sabes porque estou cá? – Gritei, o sangue escorrendo-me para o queixo, um sorriso aberto de vingança – porque vejo o que tu não podes ver. Não sou louca, sabes? E tu vais morrer. Vais querer respirar e não conseguir, sentir o corpo a contorcer-se enrolado numa corda e vais querer com força, dar golpes de ar e não poder e a aflição vai misturar-se no teu corpo e vais sujar-te toda de dor. Tu vais morrer. E os teus filhos também.

Ela parou. Pela primeira vez a olhar-me, numa atenção de medo:

- Como é que sabes que tenho filhos, se nunca saíste deste quarto e eu nunca o disse? – Voz surda, num temor?

Nova gargalhada.

- Tu vais morrer. Eu sei.

Nessa noite, depois do jantar, quando o sino batia oito vezes num entoar contínuo um grito de pavor cortou o ar e calaram-se os barulhos dos cães, as vozes dos loucos, as rezas dos sãos: alguém encontrara a enfermeira pendurada numa corda, amarrada a uma das vigas do pátio murado, de língua de fora e urina pelas pernas abaixo.

Agora a minha irmã não me fala porque me disse, num sibilar de palavras, que levar os outros à loucura só nos faz permanecer aqui mais dias, mais tempo, mais horas e que cada minuto de cada dia aqui fechadas é um minuto a menos na salvação de quem tanto amamos. Que o tempo urge e que tenho de ser mais do que a minha raiva.

Tentei a todo o custo, deitada na cama, antever quando ela me voltará a falar para possamos enfim, decidir como sair daqui. Mas tudo o que consegui foi uma névoa de cinzento, uma nuvem cerrada de indefinição.

Cada ação, uma consequência, cada escolha um resultado: usar a visão de forma errada, perda da mesma por semanas.

E não sei se tenho paciência.

 

 

VII.

 

Hoje decidiram separar-nos de vez.

Passei por ela no pátio central e ignorei-a. Sabe Deus que foi como se me arrancassem o coração, mas ela tem que aprender. Se continua assim, ficaremos fechadas neste inferno para sempre.

Mas o que é que ela acha que me fazem de cada vez que me levam? É certo que nunca falei nisso, para a proteger de certa forma, não sei se estou errada. Não sei se ela aguentaria saber de antemão o horror que a espera. Dizem que é um tratamento revolucionário, sou submersa em água gelada durante oito horas por dia, dizem que somos esquizofrénicas, que se isto não resultar vão experimentar os electrochoques nela. Nem quero pensar…

É por ela que aguento esta tortura, por ela, para ela não ter que passar por isto.

Aquele temperamento indomável, tão rebelde como os cabelos louros encaracolados, que apesar de penteados e alisados todos os dias, parece que têm vontade própria.

A sua incapacidade de estar calada, e foi essa incapacidade que nos atirou para aqui.

Mesmo mais velhas, mesmo depois de termos jurado que as nossas visões eram só nossas, é mais forte que ela, fala sempre sem pensar!

Como naquele dia, naquele final de Novembro, em que a tia Anastácia, depois de uma doença prolongada, melhorou e toda a família foi visitá-la.

Estávamos juntas, de mãos dadas junto à janela, quando o padre cura entrou no quarto para lhe desejar as melhoras, depois de já lhe ter dado a extrema unção.

Pegou-lhe nas mãos e beijou-as, “Como está a nossa mais devota aldeã? As nossas preces foram atendidas!”, e olhou para a família em redor da cama.

Quando por breves segundos os seus olhos se cruzaram com os meus, apertei-lhe a mão com força, de tal modo que ficou branca, sem sangue entre os meus dedos. Ela olhou-me e viu o meu olhar de terror.

Vi o padre, vi-o a acariciar um jovem rapaz, a beijá-lo nos lábios, a debruçá-lo sobre o altar, a possuí-lo, o rapaz a rebelar-se, a garganta do rapaz a rasgar-se sob a lâmina, o sangue a jorrar sobre o chão da capela, o padre a cavar uma sepultura sob o carvalho grande na ponta do cemitério, o rapaz, que desaparecera há 8 anos, sepultado para sempre, incógnito numa campa rasa.

O padre voltou a falar, “A nossa Dona Anastácia vai durar mais uma década, vão ver!”.

E ela disse, lentamente, como que em êxtase:

“No Natal ela já não estará entre nós. O mal que ela tem é na barriga, e vai esvair-se em sangue.”

 

 

VIII.

 

Não falo, não falo, não falo. Tenho a voz colada à garganta e recuso-me a falar, a dizer seja o que for no dia que corre. Não falo. Não como. Não vejo. Estou cega de mim e não vejo, não sinto, não sou, perdida em trevas de coisas maiores que me inundaram a noite toda em imagens de sangue que devia estar habituada a ver e não estou.

Não falo, não falo, não falo. Não sinto, não vejo, não como. Talvez morra mas nada pode ser pior que viver um dia sem saber dela, se volta, se fica, se permanece. Olho ao meu redor, cega das imagens que queria ver. Há paredes rachadas, humidade em bolor que se arrasta em estranhas imagens pelo branco baço. Ouço na rua, o meu quarto dá para a rua, o latido dos cães quando, depois do jantar, alguém lhes atira restos do que sobra. E sei, agora, que não posso, não vou poder sair daqui sem ela.

Desgraçada da enfermeira que se havia de matar!

Quem a substitui é uma rapariga magra, pálida, de grandes tranças negras. Ontem entrou no quarto em passos de lã e falou comigo, acerca do tempo. Muito antes do sol se pôr. Não lhe respondi. Não comi o que me deram. E quando ela saiu vi nos corredores uma mulher alta, de grande bata branca a sobrar pelos pedaços magros de corpo, falando sozinha.

A enfermeira pegou nela pela mão, puxando-a quase com ternura e mais tarde, quando o céu negro entrava pelos vidros porcos da janela, ouvi a voz dela, posso jurar que era ela, encostada à parede do quarto, da parte de fora, dizendo, numa voz quase divertida:

- Tu ainda não foste ao choque, não? Tu ainda não sentiste o coração a querer saltar-te pela boca, não? Tu ainda não desmaiaste, não? Ou foste tu? Ia jurar que te vi à bocado, cheia de sangue, a ser arrastada da sala de choques. Se não eras tu, era uma igual a ti. eras tu, não eras?

 

 

IXI.

 

Levaram-me de manhã para uma sala forrada de azulejos verdes. Já não estou zangada com ela, apenas sinto a sua falta.

Estou mergulhada na minha saudade, nem reparo nos aparelhos estranhos a um canto, perto da marquesa onde me deitam, onde me amarram os pés e as mãos.

Uma enfermeira, de cabelo curto e óculos, com um ar rígido e austero, diz-me secamente, “Mete isto entre os dentes, não deixes cair”. Olho-a nos olhos, os olhos por detrás das lentes espessas que me mostram uma infância de abusos, de dor, de espancamentos brutais por parte de um pai bêbedo. São uns olhos frios, gélidos, de quem não tem dó nem piedade, os mesmos olhos que afogaram um gato bebé, o gozo, sentimento de puro êxtase com que ela, ainda criança, observou o pequeno ser a debater-se enquanto ela o segurava debaixo de água, na ribeira por trás da casa.

Ouço a voz do médico atrás de mim, mas não tenho tempo de perceber o que diz, sinto apenas a corrente eléctrica atravessar-me o corpo, a única coisa que me fica gravada na memória é o olhar de puro deleite da enfermeira. O meu corpo entra em convulsão, não consigo parar de tremer. Sinto o sangue a correr-me do nariz e os meus dentes continuam furiosamente cravados no pedaço de madeira envolto em gaze.

Aplicam-me um segundo choque.

Está tudo negro.

Sinto-os pela primeira vez. O ódio é como um odor pungente que me penetra a alma.

Abro os olhos. Estou a ser arrastada para o meu quarto.

E vejo-os, as suas formas fantasmagóricas coladas ameaçadoramente ao corpo das enfermeiras.

Vejo a cara disforme, com queimaduras nas têmporas, a espreitar pelo ombro da enfermeira dos óculos, com um esgar de ódio e vingança.

Desmaio novamente.

Estou no meu quarto. Mas a tinta das paredes já não está descascada, na realidade cheira a tinta fresca. A cama também foi mudada, é nova.

Uma sensação de pânico invade-me, estou amarrada e não me lembro de nada. Nada da minha vida.

A enfermeira dos óculos entra, está mais nova, sem rugas, mas o olhar sádico é o mesmo. Trás na mão um balde com água, pelo menos soa a água.

Ela dirige-se à cama onde estou amarrada e despeja-o sobre a minha cabeça. Não consigo respirar, a água entra pela minha boca e inunda-me os pulmões. Estou a morrer, sinto-o, mas não há paz, só ódio e raiva. Um ódio mortal.

Acordo aos gritos, banhada em suor, apesar do ar gélido que entra pelos vidros partidos da janela.

Os choques eléctricos. Em vez deixar de ver o passado, passei a vivê-lo, através olhos dos mortos que inundam este hospital.

Mas a memória está cá. Lembro-me. Lembro-me dela e suspiro de alívio.

 

 

XIX.

 

Quando estamos desesperados temos tendência a fazer coisas idiotas. Eu sei disso e mesmo assim não me consegui controlar. Sem ela perco a noção das coisas, deixo de conseguir dormir e sem dormir não consigo pensar. É nessas alturas que me torno louca, com decisões que me prejudicam – nos prejudicam, creio – e tudo se complica um pouco mais.

Uma grande bola de neve.

A primeira coisa que fiz foi deixar de comer. Percebam: eu não tinha a visão. É um castigo pela desgraçada da outra se ter suicidado, num gesto tétrico e obtuso que só as almas pequenas conseguem. Não conseguia vê-la para lá das nuvens de nevoeiro que me encharcavam a mente. Achei que parar de comer me aliviaria, me purificaria e a visão retomaria. E depois, não haja uma grande diferença entre não comer ou comer os nacos de pão bolorento ou os pedacitos quase podres de carne que me estendem em louça suja.

O nosso corpo aguenta a falta de comida mas de água nem por isso. Ao segundo dia sem comer nem beber nada, depois de semanas seguidas aqui fechada, eu não tinha forças para me levantar. A enfermeira das tranças pretas obrigou-me a beber e acabou comigo, num esforço redobrado e numa força nova, a morde-la no braço, agarrando-me à carne, quase apreciando o sabor do sangue que saía dela.

Portanto, acabaram por me castigar. Não vi rostos ou pessoas mas vieram ao quarto durante a noite e bateram-me. Uma voz rouca disse-me que seria assim enquanto não aprendesse.

Não conhecem, de todo, a minha garra.

Voltei a deixar de comer e beber. Voltaram a obrigar-me, pela força. Usei dos dentes, das unhas, dos pés. Voltaram a bater-me. Esta rotina tornou-se um ciclo até o meu corpo ser um pedaço negro de hematomas, sangue em crosta e ossos colados à pele.

Ao fim de uma semana trouxeram-na.

Olhou-me com ar doído e não conseguiu dizer nada. Levantou-me do chão onde estava atirada, limpou o sangue que secara no corpo, ajudou-me a vestir, segurou a minha mão enquanto eu bebia e comia, quase com medo. Fosse como fosse eu tinha ganho, pela força e pelo sacrifício. Trouxeram-na. E depois de dois dias em que dormi e comi novamente ela disse-me, como quem anuncia que vai comprar luvas:

- Descobri como nos tirar daqui.

Assim, em voz pausada e serena, levando à boca pedaços pequenos de pão:

- Descobri como nos tirar daqui.

 

 

X.

 

As correias de cabedal prendem-me as mãos e os pés. Ainda estou meia zonza dos choques, o mundo ainda é composto de imagens difusas, gritos, sentimentos de ódio, tristeza e frustração. Não sei se são meus se dos espíritos que habitam este lugar.

À medida que abro os olhos, sem perceber muito bem se é realidade ou se ainda estou a sonhar, um rosto observa-me com curiosidade.

“Vamos ver como ela recupera, temos que documentar esta evolução”.

A voz masculina é grave e meio rouca, e não se adequa nada ao médico que fala, cujas feições são suaves, mas bem definidas, o cabelo é escuro e um pouco ondulado, penteado para trás, com uma madeixa rebelde que lhe cai sobre a testa. Os olhos são cinzentos e límpidos, brilham mesmo por detrás dos óculos de aros redondos.

Volta a observar-me, agarra-me o pulso, pressionando a artéria radial, olhando com um ar compenetrado para o relógio de pulso. Quando acaba, fica por momentos a observar-me em silêncio e passa-me a mão no cabelo e pelo rosto, “Esta menina, tão bonita, tem que ficar boa!”

Já sei como sair daqui! Mas não posso ser eu, tem que ser ela a tirar-nos, se conseguir domar aquele feitio!

Eu sei que a minha pele branca e os cabelos negros me dão um ar soturno e pesado, mas ela…ela é um raio de sol, toda ela é luz e fogo e vida, é por ela que ele se tem que apaixonar.

Pela primeira vez, desde que estou aqui, que sinto esperança, como um cobertor quentinho e confortável que me aquece a alma.

 

Quando voltei para junto dela, encontrei-a abatida, já não me interessa o que ela tenha feito, as saudades são demolidoras.

Pego-lhe nas pequenas mãos no meio das minhas e explico-lhe tudo:

-Tens que ser tu! Tens que seduzi-lo, tens que o fazer apaixonar-se por ti, é a única maneira de sairmos daqui!

Ela levanta os olhos com ar de espanto.

- Mas que idade tem ele? E nós? Somos tão novas!

- Temos quase 16, e se estivéssemos lá fora, aposto que a mãe já nos andava a preparar o casamento!

- E ele? É bonito?

- É o mais bonito que já vi! Quando ele te vier ver, tens que olhar para os olhos dele e ver-lhe o futuro, assim saberemos se temos hipóteses!

Ela cai-me nos braços a soluçar, diz que já não aguenta, e só nessa altura reparo nas nódoas negras e nos cortes que tem nos braços. Um ódio imenso inunda-me o peito, vão pagar!, vão todos pagar caro!

Adormecemos as duas, a pele dela funde-se com a minha, os nossos cabelos entrelaçam-se, a pele, dela cor de porcelana cheira a baunilha, a minha é branca, acinzentada e as veias são como troncos de árvores despidos e negros que me rasgam a pele, ela é o sol que me ilumina, o Verão da minha vida. Eu sou o Inverno, sou as noites longas e escuras. Sem ela não há luz, sem ela sou prisioneira das trevas que habitam a minha alma.

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publicado às 15:00

Memento Mori retorna para a semana!

por Neurótika Webb, em 14.09.15

Aviso à Navegação:

 

O Memento Mori retorna para a semana!

Com os mesmo agendamento, às Terças no blog da MJ, e às Quintas aqui.

 

Entretanto, fica um docinho, amanhã podem reler (ou ler) no blog da MJ os capítulos I. a V. e na Quinta os capítulos VI. a X.

 

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publicado às 16:52

X.

por Neurótika Webb, em 06.08.15

As correias de cabedal prendem-me as mãos e os pés. Ainda estou meia zonza dos choques, o mundo ainda é composto de imagens difusas, gritos, sentimentos de ódio, tristeza e frustração. Não sei se são meus se dos espíritos que habitam este lugar.

À medida que abro os olhos, sem perceber muito bem se é realidade ou se ainda estou a sonhar, um rosto observa-me com curiosidade.

“Vamos ver como ela recupera, temos que documentar esta evolução”.

A voz masculina é grave e meio rouca, e não se adequa nada ao médico que fala, cujas feições são suaves, mas bem definidas, o cabelo é escuro e um pouco ondulado, penteado para trás, com uma madeixa rebelde que lhe cai sobre a testa. Os olhos são cinzentos e límpidos, brilham mesmo por detrás dos óculos de aros redondos.

Volta a observar-me, agarra-me o pulso, pressionando a artéria radial, olhando com um ar compenetrado para o relógio de pulso. Quando acaba, fica por momentos a observar-me em silêncio e passa-me a mão no cabelo e pelo rosto, “Esta menina, tão bonita, tem que ficar boa!”

Já sei como sair daqui! Mas não posso ser eu, tem que ser ela a tirar-nos, se conseguir domar aquele feitio!

Eu sei que a minha pele branca e os cabelos negros me dão um ar soturno e pesado, mas ela…ela é um raio de sol, toda ela é luz e fogo e vida, é por ela que ele se tem que apaixonar.

Pela primeira vez, desde que estou aqui, que sinto esperança, como um cobertor quentinho e confortável que me aquece a alma.

 

Quando voltei para junto dela, encontrei-a abatida, já não me interessa o que ela tenha feito, as saudades são demolidoras.

Pego-lhe nas pequenas mãos no meio das minhas e explico-lhe tudo:

-Tens que ser tu! Tens que seduzi-lo, tens que o fazer apaixonar-se por ti, é a única maneira de sairmos daqui!

Ela levanta os olhos com ar de espanto.

- Mas que idade tem ele? E nós? Somos tão novas!

- Temos quase 16, e se estivéssemos lá fora, aposto que a mãe já nos andava a preparar o casamento!

- E ele? É bonito?

- É o mais bonito que já vi! Quando ele te vier ver, tens que olhar para os olhos dele e ver-lhe o futuro, assim saberemos se temos hipóteses!

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publicado às 15:00

VIII.

por Neurótika Webb, em 30.07.15

Levaram-me de manhã para uma sala forrada de azulejos verdes. Já não estou zangada com ela, apenas sinto a sua falta.

Estou mergulhada na minha saudade, nem reparo nos aparelhos estranhos a um canto, perto da marquesa onde me deitam, onde me amarram os pés e as mãos.

Uma enfermeira, de cabelo curto e óculos, com um ar rígido e austero, diz-me secamente, “Mete isto entre os dentes, não deixes cair”. Olho-a nos olhos, os olhos por detrás das lentes espessas que me mostram uma infância de abusos, de dor, de espancamentos brutais por parte de um pai bêbedo. São uns olhos frios, gélidos, de quem não tem dó nem piedade, os mesmos olhos que afogaram um gato bebé, o gozo, sentimento de puro êxtase com que ela, ainda criança, observou o pequeno ser a debater-se enquanto ela o segurava debaixo de água, na ribeira por trás da casa.

Ouço a voz do médico atrás de mim, mas não tenho tempo de perceber o que diz, sinto apenas a corrente eléctrica atravessar-me o corpo, a única coisa que me fica gravada na memória é o olhar de puro deleite da enfermeira. O meu corpo entra em convulsão, não consigo parar de tremer. Sinto o sangue a correr-me do nariz e os meus dentes continuam furiosamente cravados no pedaço de madeira envolto em gaze.

Aplicam-me um segundo choque.

Está tudo negro.

Sinto-os pela primeira vez. O ódio é como um odor pungente que me penetra a alma.

Abro os olhos. Estou a ser arrastada para o meu quarto.

E vejo-os, as suas formas fantasmagóricas coladas ameaçadoramente ao corpo das enfermeiras.

Vejo a cara disforme, com queimaduras nas têmporas, a espreitar pelo ombro da enfermeira dos óculos, com um esgar de ódio e vingança.

Desmaio novamente.

Estou no meu quarto. Mas a tinta das paredes já não está descascada, na realidade cheira a tinta fresca. A cama também foi mudada, é nova.

Uma sensação de pânico invade-me, estou amarrada e não me lembro de nada. Nada da minha vida.

A enfermeira dos óculos entra, está mais nova, sem rugas, mas o olhar sádico é o mesmo. Trás na mão um balde com água, pelo menos soa a água.

Ela dirige-se à cama onde estou amarrada e despeja-o sobre a minha cabeça. Não consigo respirar, a água entra pela minha boca e inunda-me os pulmões. Estou a morrer, sinto-o, mas não há paz, só ódio e raiva. Um ódio mortal.

Acordo aos gritos, banhada em suor, apesar do ar gélido que entra pelos vidros partidos da janela.

Os choques eléctricos. Em vez deixar de ver o passado, passei a vivê-lo, através olhos dos mortos que inundam este hospital.

Mas a memória está cá. Lembro-me. Lembro-me dela e suspiro de alívio.

 

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publicado às 15:00

VI.

por Neurótika Webb, em 23.07.15

Hoje decidiram separar-nos de vez.

Passei por ela no pátio central e ignorei-a. Sabe Deus que foi como se me arrancassem o coração, mas ela tem que aprender. Se continua assim, ficaremos fechadas neste inferno para sempre.

Mas o que é que ela acha que me fazem de cada vez que me levam? É certo que nunca falei nisso, para a proteger de certa forma, não sei se estou errada. Não sei se ela aguentaria saber de antemão o horror que a espera. Dizem que é um tratamento revolucionário, sou submersa em água gelada durante oito horas por dia, dizem que somos esquizofrénicas, que se isto não resultar vão experimentar os electrochoques nela. Nem quero pensar…

É por ela que aguento esta tortura, por ela, para ela não ter que passar por isto.

Aquele temperamento indomável, tão rebelde como os cabelos louros encaracolados, que apesar de penteados e alisados todos os dias, parece que têm vontade própria.

A sua incapacidade de estar calada, e foi essa incapacidade que nos atirou para aqui.

Mesmo mais velhas, mesmo depois de termos jurado que as nossas visões eram só nossas, é mais forte que ela, fala sempre sem pensar!

Como naquele dia, naquele final de Novembro, em que a tia Anastácia, depois de uma doença prolongada, melhorou e toda a família foi visitá-la.

Estávamos juntas, de mãos dadas junto à janela, quando o padre cura entrou no quarto para lhe desejar as melhoras, depois de já lhe ter dado a extrema unção.

Pegou-lhe nas mãos e beijou-as, “Como está a nossa mais devota aldeã? As nossas preces foram atendidas!”, e olhou para a família em redor da cama.

Quando por breves segundos os seus olhos se cruzaram com os meus, apertei-lhe a mão com força, de tal modo que ficou branca, sem sangue entre os meus dedos. Ela olhou-me e viu o meu olhar de terror.

Vi o padre, vi-o a acariciar um jovem rapaz, a beijá-lo nos lábios, a debruçá-lo sobre o altar, a possuí-lo, o rapaz a rebelar-se, a garganta do rapaz a rasgar-se sob a lâmina, o sangue a jorrar sobre o chão da capela, o padre a cavar uma sepultura sob o carvalho grande na ponta do cemitério, o rapaz, que desaparecera há 8 anos, sepultado para sempre, incógnito numa campa rasa.

O padre voltou a falar, “A nossa Dona Anastácia vai durar mais uma década, vão ver!”.

E ela disse, lentamente, como que em êxtase:

“No Natal ela já não estará entre nós. O mal que ela tem é na barriga, e vai esvair-se em sangue.”

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publicado às 15:00

Mais um capítulo Memento Mori

por Neurótika Webb, em 21.07.15

Hoje tou em off...são os anos do meu rebento.

Mas, é só para recordar que hoje foi publicado mais um capítulo da nossa história.

 

Ora vão lá ver!

 

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publicado às 17:17


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A Paciente

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